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quarta-feira, 3 de setembro de 2014

O Poema em linha reta

             Fernando Pessoa é um poeta português que se situa entre o Simbolismo e o Modernismo. Sua obra é de teor universal e se constitui em um legado para Língua Portuguesa, junto a Luís de Camões. A característica principal do poeta e escritor português é ter concebido uma obra marcada pela heteronímia, que se constitui no desdobramento do sujeito poético em outros e que são construídos como verdadeiras personalidades poéticas. Os poemas assinados por Fernando Pessoa agrupam-se na sua obra denominada ortônima, também denominada “Fernando Pessoa, ele mesmo”. Os críticos da obra pessoana consideram o heterônimo Álvaro de Campos como o mais próximo do eu lírico em Fernando Pessoa. É ele quem assina este “Poema em Linha Reta”, que se celebrizou, inclusive, por lançar, no âmbito da literatura ocidental contemporânea, um protesto contra a vaidade, que se ampliava na apologia à vida moderna e na propagação de ideais calcados na aquisição de bens materiais em que o “ter” ganhava relevo sobre os valores em torno do “ser” naqueles fins de século XIX.           

 De fato, por um crescente desenvolvimento tecnológico, os valores estavam convulsionados e em lugar dos ideais românticos, o espírito cientificista e positivista também se fazia como um elogio ao materialismo. O heterônimo Álvaro de Campos é descrito pelo poeta Fernando Pessoa como um engenheiro de ascendência inglesa, que havia estudado na Escócia e migrado de volta à Lisboa, mas não logrou êxito na carreira. Segunda consta, ainda, é o único dos heterônimos na poética pessoana que apresenta fases em sua poesia, sendo a primeira marcada pelo Decadentismo, que aparece já no declínio do Simbolismo; a segunda, sob a influência do Futurismo, movimento que foi deflagrado pelo italiano Marinetti e que fazia a apologia do homem moderno com sua produção tecnológica.
          Por fim, a terceira fase da poética do heterônimo Álvaro de Campos teria sido marcada pela filosofia niilista, expressando-se por um total desencanto pela vida, e na descrença de respostas positivas às perguntas existenciais, escatológicas. No niilismo, tendência filosófica que surgiu após a Revolução Francesa, proclamava-se uma atitude em que se mesclam a nostalgia e o cinismo, bem como a indiferença pelos fatos essenciais da vida.
          Do conjunto de poemas assinados pelo engenheiro Álvaro de Campos destacam-se também “Ode Triunfal” e “Tabacaria”. No primeiro, o sujeito poético exprime seu entusiasmo pelo mundo das máquinas, completamente voltado para o Futurismo, mas onde se nota também um acento nostálgico, mesmo crítico e irônico com relação à relativização da importância do homem, que se vê em muitas tarefas substituido pela máquina naqueles fins de século. No poema referido, Álvaro de Campos exclama: “A dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica/ tenho febre e escreve /Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto/ Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos”.
         O entusiasmo do sujeito lírico ante as máquinas, que se oferecem infalíveis ao homem moderno, não esconde um certo estranhamento e no decorrer da enunciação também desdenha da cultura cientificista, que se impunha no mundo de então. No poema “Tabacaria”, quinze anos mais tarde, Álvaro de Campos escreveu: “Não sou nada / nunca serei nada. / Não posso querer ser nada. /A parte isso tenho em mim todos os sonhos do mundo/[...] Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade/ estou hoje lúcido, como se tivesse para morrer”. Nesse texto, o heterônimo deságua todo desencanto, manifestando a tendência niilista que dominara a sua poética nessa sua terceira fase e que engloba também este “Poema em Linha Reta”, no qual o eu lírico expõe não só o desencanto niilista que apregoa a falta de sentido da existência mas também expõe a impotência de um indivíduo frente a um sistema que privilegia a aparência surgindo com e a necessidade competitiva.
           Este poema também nos remete à visão de mundo pessoana sobre a sociedade lisboeta de então. De maneira direta o sujeito poético faz uma declaração arrojada, pessoal, de tom muito confessional a julgar pelo primeira estrofe: “Nunca conheci quem tivesse levado porrrada,/ todos os meus amigos têm sido campeões em tudo/ e eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil/ Eu, tantas vezes irrespondivelmente parasita/indescupavelmente sujo”. Os versos revelam uma total exposição e despojamento na negativa do sujeito poético ao se colocar como uma pessoa desqualificada diante de “campeões”. No entanto, utiliza-se de profunda ironia em sua declaração que exibe um contraste entre uma posição e outra. A ironia é um instrumento de retórica, utilizado largamente para se fazer uma crítica, uma denúncia, um libelo, um protesto, colocando-se expressões de outro timbre que disfarcem aquilo que se quer dizer realmente. O poeta lança injúrias consigo mesmo para denunciar um comportamento que tende a esconder a real condição de seus pares.
      

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