Google+ Followers

segunda-feira, 11 de março de 2013

MANOEL DE BARROS

 

  1. Para um retrato aproximado do artista

 

                                                                                 

 
 
                                                                         
Deus disse: Vou ajeitar a você um dom:

                                                                           Vou pertencer você para uma árvore.

                                                                           E pertenceu-me.

                                                                           Escuto o perfume dos rios.

                                                                           Sei que a voz das águas tem sotaque azul

                                                                           Sei botar cílios nos silêncios.

                                                                           Só não desejo cair em sensatez.

                                                                           Não quero a boa razão das coisas.

                                                                           Quero o feitiço das palavras.

 

                                                                                                   (Manoel de Barros) [1]

 

               O poeta Manoel de Barros, que acumula 75 anos de poesia, parece andar na contramão do desejo de visibilidade, uma das características da sociedade nesta fase chamada de pós-moderna em que quase tudo tende a tornar-se público e a privacidade parece estar dimensionada em menor valor tendo em vista o anseio pela fama. Segredos e intimidade parecem coisas do passado numa sociedade que privilegia a forma e a aparência, e o anonimato pode ser entendido como ausência de importância social. Estamos culturalmente presos à ânsia do espetáculo e sob a obrigatoriedade de sucesso. Um dos padrões dominantes é que o indivíduo se mostre sempre venturoso e vencedor ainda que se tenha de pagar um alto preço.                                     É nesta cultura midiatizada que se destaca um personagem chamado Manoel de Barros, o nome oficial de Manoel Wenceslau Leite de Barros, nascido no Beco da Marinha, à beira do Rio Cuiabá, em 1916. A família se mudou para Corumbá, em Mato Grosso do Sul, quando Nequinho, como o chamavam carinhosamente os familiares, tinha apenas dois meses de nascido.

              A obra de Manoel de Barros constitui-se também de suas memórias e o locus dessas vivências e lembranças é o Pantanal, é Corumbá, a cidade - limítrofe com a Bolívia. O constructo de sua poética contempla a experiência de uma vida entre urbana e rural em mundos não divididos apesar de fronteiriços e no qual o poeta estabelece os “deslimites”, neologismo criado por ele que funciona como metáfora de seu fazer poético. De fato, na sua poesia encontram-se representados os elementos da natureza e a construção da linguagem se faz similarmente àquela região que não tem feição definitiva porque seus contornos variam segundo o ir e vir das águas. De acordo com o poeta, em entrevista a José Castello: “No Pantanal não se pode passar a régua. A régua e o Pantanal não têm limites”(BARROS, 1996, p. 2).

            O Pantanal constitui-se num bioma com caracteres geomorfológicos e geológicos – hidrografia, conjunto climático, além da fauna e flora - bastante específicos; caracteriza-se ainda pela sazonalidade imposta pelo ritmo das águas que ocasionam cheias e secas. Sua complexidade deriva do fato de haver sete pantanais nas regiões que compreendem o Mato Grosso do Sul e a Amazônia, sendo que hoje em dia a região é nomeada no plural. Toda esta diversidade geográfica também deu origem a uma gama considerável de palavras que pertencem ao registro oral próprio do povo pantaneiro, caracterizando uma espécie de dialeto.

             O poeta chegou à conclusão de que cada fazenda do Pantanal constituía-se numa ilha linguística e ele próprio coligiu cerca de quinhentas expressões desse “dialeto” pantaneiro. Ele se autodenomina um “bugre velho”. O bugre é um termo que designa os índios e a população que se formou a partir da mistura com esta etnia. O termo “bugre” refere-se ainda à população rude, típica de certas áreas rurais do Brasil ou mesmo, metonimicamente, ao sujeito desqualificado, o popular “João-ninguém”. Há bugres na cidade, mas os verdadeiros são os que vivem no mato, que se escondem e são agressivos e arredios, segundo nos ensina Guisard (1996). O termo é pejorativo e o ser “bugre”, em  Manoel de Barros, representa uma maneira de estar no mundo com sua escrita obscura e com sua diferença no trato com a língua fazendo-se em oposição à mera tradução de sentimentos e da descrição de paisagens.

               A autoafirmação de ser bugre por parte do poeta é irônica. Pretende sublinhar sua identificação com os excluídos sociais de toda sorte; alinha-se, portando, aos personagens que comparecem a sua obra e que representam figuras sem relevância social. O “ser bugre” também diz respeito à identificação com seus pares no trato com uma linguagem em que predomina a oralidade. O poeta, ao recriar a linguagem cabocla própria de seu habitat, amplia e aprofunda as características orais do caipira do Brasil central, que se articula também em oposição à gramática normativa. Identificação e rebeldia se associam, portanto, nesta poética cujo grau de estranhamento revela-se nos arranjos sintáticos surpreendentes, nas desarrumações da frase e pela criação de neologismos combinados ao uso de arcaísmos, resultando no que o poeta chama de “errar a língua”. A escrita barreana, no exercício metalinguístico de explicar a própria poesia, diz num de seus poemas:

 

O sentido normal das palavras não faz bem ao poema./ Há que se dar um gosto incauto aos termos./Haver com eles um  relacionamento voluptuoso./ talvez corrompê-los até a quimera./ Escurecer as relações entre os termos em vez de aclará-los./ Não existir mais reis nem regências./ Certa liberdade com a luxuria convém (BARROS, 2010, p.265).

        

             Manoel de Barros concebeu uma densa obra reunindo títulos para o público adulto e também para o infantil[2]. Homem de muitas leituras, estudou poetas e filósofos da antiguidade, pesquisou sobre Linguística e os grandes teóricos da literatura. O onírico e o surrealismo parecem ter sido apreendidos pela fruição de pintores como Paul Klee, Picasso, Miró, Modigliani, Van Gogh; há registro de códigos visuais hauridos desses artistas nesta poética que privilegia o aspecto imagético. A obra barreana varia entre o explícito de textos aparentemente fáceis e o implícito, apresentando combinações semânticas obscuras como esta: “Na língua dos pássaros uma expressão tinge a seguinte. Se é vermelha tinge a outra de vermelho. Se é alva tinge a outra dos lírios da manhã”. (BARROS, 2010, p. 371). Além do mais, sua escritura parece se estruturar em camadas, possibilitando várias leituras. Um dos leitmotiv de sua poética é, paradoxalmente, o nada.

            Entre o nada e o tudo, o poeta intercala na página a palavra e a sua ausência, pois busca sobremodo o mutismo do silêncio: “uso as palavras para compor os meus silêncios/ Não gosto das palavras fatigadas de informar”, reitera a cada entrevista nas quais procura explicar as ideias que norteiam sua poesia, que privilegia a linguagem em si antes que a informação: “Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia”. (BARROS, 2010, p. 347).

        

Nenhum comentário:

Postar um comentário