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terça-feira, 29 de março de 2011

HUMILDADE E PAIXÃO

“A poesia é uma outra linguagem, porque nela se criam realidades que têm existência intelectual e corporiedade oral, que não são possíveis fora dela” ( Antonio Gamoneda)

FILHO, Hildeberto Barbosa. “Anotações acerca da poesia e do poema”, in A Luz e o Rigor, reflexões sobre o poético, editora Manufatura, João Pessoa, 72

Nessa época em que proliferam editoras cujos serviços inclui o de fazer com que alguém se torne autor com custos e tiragens mínimas, Hildeberto Barbosa Filho vem bem à propósito neste artigo oferecer-nos uma visão aproximada sobre o que a poesia é e sobre o que ela não é... Na página 20, salta aos olhos uma definição radical do fenômeno poético, a de Ivan Junqueira. Para este ensaísta poesia é a “a mais difícil, complexa e misteriosa manifestação do espírito humano. Exercê-la é o supremo risco, e não se deve corrê-lo à toa”. O autor dividiu seu artigo em sete partes numa abordagem bastante didática em que os assuntos são dispostos em um encadeamento lógico.Seu discurso é frontal, objetivando destrinchar para o leitor o que é do que parece ser, no âmbito da criação poética e no seu produto final, o poema. O conceito de “poema” difere do de poesia, que é utilizado metonimicamente para definir o primeiro. Ele cita Octavio Paz em "O arco e a lira" para distingui-los. De acordo com o ensaísta mexicano, a poesia resulta de “uma condensação do acaso ou é uma cristalização de poderes e circunstâncias alheios à vontade criadora do poeta”, mas o poema, enquanto resultado de uma ação transformadora pelo poeta, é algo que se cria, é obra da linguagem. ( p. 19).
Na primeira parte, Hildeberto Barbosa tece considerações sobre o aspecto lúdico do poema como sendo um procedimento racional utilizado para a sua formatividade nos temos propostos por Luige Pareyson, em os "Problemas de Estética". Ele coloca essa função em evidente dependência da função estética. Um poema, em seu aspecto lúdico, se valerá de estratégias lingüísticas no que toca ao significante tanto no âmbito da sonoridade quanto no aspecto visual. Assim, a música das palavras resultará da utilização de técnicas como as da repetição, da aliteração, da onomatopéia, dentre outros recursos. Já a visualidade pode ser enfatizada através da fragmentação vocabular, da diagramação, paginação e outros recursos tipográficos. Sobretudo, no que diz respeito ao lúdico, o significado se revestirá do nonsense e da alogicidade. Um poema que apresenta uma proposta para a brincadeira sobressai pela espontaneidade, pelo despojamento. Faz-se também como um contraponto a uma poética que tradicionalmente se constrói com uma carga algo grave, solene , sublime. O exemplo que o autor do artigo nos apresenta é o do poema de Carlos Drummond de Andrade “Nomes”, do livro Boitempo II ,em que os animais são designados com substantivos cuja carga semântica remete ao mágico e o mítico, na verdade uma referência à própria palavra.

O Movimento Modernista, radicalizando em busca do puramente nacional e permitindo experiências e extrtavagâncias, legou-nos o humor às vezes terno, muitas vezes desabrido; também requintado e irônico em certos poemas com a proposta de brincadeira que identificamos na obra do poeta Manuel Bandeira, por exemplo. Para este estudioso, a vertente lúdica existe “ na poesia de todo poeta que sabe ver, em sendo verdadeiro poeta, na palavra, um delicioso brinquedo para alargar o prazer da fantasia e da imaginação” ( p. 17). Na segunda parte do artigo, o autor tece considerações sobre o fato de os jovens poetas ou “os candidatos ao Parnaso” fazerem uma grande confusão entre expressão poética e expressão sentimental. Ele afirma que nem tudo o que se escreve em verso contém poesia. Nesse caso, o poema pode estar condicionado à outras funções como a didática e a histórica, sem que se privilegie a função poética da linguagem que nos foi ensinada por Roman Jakobson. O estudioso fala ainda da possibilidade de uma “ prosa travestida”, cujos versos estariam dispostos como “linhas fraseológicas cortadas”, o que aponta para uma clara distinção entre poesia e desabafo, páginas confessionais com uma névoa de poesia, catarses destituídas de rigor estético. Este autor chama a atenção para o fato de que, o sentimento, - aparecendo em primeiro plano em todas estas expressões poetizadas - constitui-se em apenas uma partícula dessa experiência singular e mágica que é a poesia, surgindo junto aos afetos, as pulsões, desejos, inspiração. Ou seja, o sentimento não deve ser eleito como sinônimo de poético. Para Hildeberto Barbosa, o poema constitui-se numa operação intelectiva, sendo o sentimento um fator desencadeador ao qual devem associar-se “as modulações do ritmo, as virtualidades simbólicas da imagem e a surpresa da síntese ideativa” ( p. 19).

Ele cita Mallarmé para quem a poesia se faz com palavras, não com toda palavra, mas numa que se defina dentro de uma estrutura poemática que se teçe em unidade estética e que, pelo inusitado de seu arranjo lingüístico, funde uma nova linguagem. Objetivando elucidar ainda a questão da produção poética em nossos dias, este estudioso registra a opinião do ensaísta José Paulo Paes em entrevista a Heitor Ferraz, publicada na Cult: revista brasileira de literatura ( numero 22, de maio de 1999), quando ele afirma que grande parte dessa profusão de obras publicadas pertence ao terreno da pré-poesia ( p. 24). Entretanto, para o nosso autor é na quantidade que se gera a qualidade, cabendo ao crítico literário e ao historiador da literatura trabalhar essa produção de maneira a estabelecer um juízo sobre os estilos predominantes. Mas ele toca a delicada questão da falta de critério para publicação e isto se deverá tanto à má formação cultural e literária dos jovens poetas como a de seus prefaciadores com os inúmeros livrinhos publicados apontando para a carência de conhecimentos culturais e específicamente literários. Para Hildeberto Barbosa esta produção denuncia a falta de leitura da alta tradiçãob lírica que estabeleceu modelos poéticos incontornáveis. “Sem o convívio da tradição (…) não se pode encontrar um caminhgo original”, ele diz à página 26 deste artigo. O ensaísta termina por aconselhar os jovens poetas a cultivar o contato entre os mais velhos e os mais experientes e, de forma disciplinada, dedicar-se ao estudo da fenomenologia do poético. Para ele, falta à maioria dos jovens poetas paixão e humildade.

Na quinta parte desse artigo o autor comenta bem à propósito da tradição, que a construção de um poema não dispensa a intertextualidade. Ele enfatiza este procedimento também como medida para “um sólido rendimento estético” na recepção de uma obra. De fato, sobretudo a poética contemporânea pode contracenar com expoentes da tradição lírica ocidental desde Homero, de maneira implícita ou explicita. Há exemplos curiosos a este respeito no terreno da intratextualidade quando o poeta dialoga com a sua própria obra. De acordo com o ensaísta, a consciência de que a escrita se faz a partir de conteúdos intertextuais fica evidente não só pela necessidade de se obter domínio deste recurso, mas e, principalmente, pelo conhecimento em profundidade da tradição literária. Como uma grande teia, em algum ponto e de maneira mais evidente ou velada, as produções poéticas de uma dada cultura se entrelaçam, convergindo escritores e o público-leitor ao fator que os identifica.
O conhecimento da literatura pressupõe ainda a que o poeta se inteire da obra de outros poetas de sua mesma geração mesmo em face de um projeto que lhe seja completamente diferente. Hildeberto Barbosa tratra desse aspecto na sexta parte do seu artigo. Como exemplo, cita João Cabral de Melo Neto quando questionado sobre suas preferências. Enquanto grande leitor de poesia o autor pernambucano refinava seu gosto com obras que se diferenciavam da forma como concebia  sua poética . Em entrevista concedida à revista Palavra, (número 12, abril de 2000), o poeta afirmou: “não tenho o preconceito de julgar um sujeito de acordo com o que eu faço e não gosto só daquelas coisas que se parecem com o que eu faço”. João Cabral de Melo Neto ensina-nos a não nos fecharmos como em um clube, um gueto ou uma seita de atividade poética ou, mesmo assumirmos a postura de “seres iluminados” infensos à crítica, adotando uma atitude de modo que o diferente venha a ser convenientemente ignorado.Um olhar ampliado acerca da fenomenologia estética pode garantir o exercício de uma crítica consequente e mais liberta de preconceitos ideológicos. À propósito disto, Hildeberto Barbosa afirmou: “Digamos que todos (….) como que estão tentando responder dignamente ao desafio singular e epifânico da poesia” ( p. 33).

Hildeberto Barbosa também faz sua crítica à poesia que se acerca do cotidiano já na última parte de seu estudo. Ele recorre à definição do poeta espanhol Antonio Gamoneda para quem a poesia é “emanação da vida, como o amor ou a respiração”. ( p. 46) Em entrevista à revista Cult ( número 46), o poeta espanhol assim se expressou: “ sinto certo desconsolo que jovens  poetas, dos anos 50 para cá, tenham desenvolvido um realismo instrumentalizado, cotidianizado, quando a codianeidade está no jornal, na televisão…Então para que isso na poesia?”.( p.34). De acordo com Gamoneda, a poesia sendo uma outra linguagem, cria realidades que têm existência intelectual e corporeidade oral, que não são possíveis fora dela.Sobre a relação da poesia com o cotidiano, Hildeberto Barbosa enfatiza que a poesia não deveria falar do que é, mas do que poderia ser, em linha com as lições de Aristóteles. O espaço da surpresa, do improvável e do imprevisível deveria prevalecer sobre esse “cotidiano instrumentalizado” que ocorre em certo discurso em que é o efêmero que se relata assim como o trivial, o banal e cujo discurso não ultrapassa a simples codificação da constatação dos fatos. De fato, a poesia é outra linguagem. Mas dentro das suas infinitas possibilidades o cotidiano pode ser abordado num poema em que se cria uma realidade própria, espiritual, dentro de uma configuração sintática que não subsiste fora dela mesma, para utilizarmos algumas dos termos em que o nosso autor define o estado poético. Desse modo, nenhuma temática, mesmo a que emana do cotidiano, deixará de ser contemplada pela poesia e o que diferirá do cotidiano tal como ele se apresenta será o tratamento que a poética lhe concede.

O artigo de Hideberto Barbosa prende-nos também pela precisão didática ao discorrer sobre a ampla e complexa matéria da poesia, distinguindo-lhe certas categorias e atributos e objetivando uma conceituação o mais aproximada possível de seu universo. O autor oferece-nos um desses textos críticos necessários ao conhecimento do assunto, ao mesmo tempo que nele identificamos as marcas linguísticas que evidenciam o que lhe é própria, a poesia.

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