sábado, 23 de abril de 2011




ESTRANHO AMOR




Que amor é esse?
Amor de punhal,
Solferino,
De areia ensaguentada,
cruz arrastada
Em meio ao cruel tumulto.
-Que amor é esse, minha mãe?
A mãe fica muda.
Alguém que me responda?
Nada. Só hoje as estrelas soluçam.
Gotejam suor os lombos da terra,
seguimos por uma estrada única.
Almas lívidas, almas pálidas,
Caminham sob luz profusa
Olhos quase cegos Te procuram.
Lançamo-nos sobre Teus pés,
Beijar teus pés,
Banha-los em lágrimas,
Embalsamá-los,
Pensar-lhe as feridas.
Hoje somos nós
Que tomamos o teu corpo,
Abraçamo-lo como mandou o Anjo.
Que amor é esse?
Perguntamos sem voz.
Látego, sôfrego,
Trago-o como fogo.
Água, lava-me
Este amor de louco.
Jesus, tua cruz, tua loucura.
À meia noite me calo
Em prece de menina que sonha,
Soluço palavras imensas de carinho:
Acredito nele
Mas não me dizes
Que amor é esse tão estranho

domingo, 17 de abril de 2011

UMA LINGUAGEM PARA O TÉDIO

Reflexões sobre o livro Louco no Oco sem Beiras de Frederico Barbosa


A revolução estética fundada no Movimento Modernista nos trouxe inovações definitivas, pelas modificações nas estruturas fônicas, léxicas e sintáticas do discurso. Estas modificações incidem sobre o significante e não casualmente os experimentalismos modernistas integram os mapas inventivos onde se situam poetas como Mallarmé, Rimbaud, Apollinaire, Valery, Maiakovsky, Pound, dentre outros nomes para os quais a palavra desvincula-se do seu significado superficial ou corrente e é explorada ao limite nas suas possibilidades linguísticas .

O divisor de águas desses tempos pós-modernos foi empreendido nos laboratórios do Modernismo da fase heróica e muito deve aos experimentalismos em prosa e verso de um Oswald de Andrade, por exemplo e, de seguida, ao refinamento em Manuel Bandeira, mestre de nossos melhores versos livres. Com mais instrumentos nas mãos e todo sentimento do mundo floresce nesse mesmo terreno a poética anti-lírica de Carlos Drummond de Andrade.

Águas rolaram até chegarmos à busca do rigor formal refletido num projeto poético o mais desvinculado possível do pitoresco e do sentimental e que nos contempla com um de nossos extraordinários poetas, João Cabral de Melo Neto. O poeta pernambucano deixa-nos o legado de uma poesia que une a concepção do poema como produto à de participação social, atingindo um lirismo substantivo. Aspectos de sua poesia são colocados pela crítica como uma antecipação ao Concretismo. No Brasil dos anos 50, coexistiam as correntes de uma poética voltada para a invenção do poema em si e a de participação social através da qual evolui até os dias de hoje o poeta Ferreira Gullar, ele mesmo um precursor da poesia concreta, com a qual se desvinculou por optar por uma mensagem de cunho político-ideológica.

O projeto concretista retomará nos anos 50 a partir de Noigrandes, com atitudes, temas e formas que se estabeleceram no Movimento Modernista, privilegiando, radicalmente, antes a forma que a temática. O poema é identificado como objeto de linguagem. A arte é techné e sob esta premissa unem-se no mesmo espaço os projetos experimentalistas das artes plásticas, da música e do cinema, como nos lembra Alfredo Bosi, (p.529). Objetivando conceber um poema como uma estrutura verbo-visual, o concretismo apresenta propostas tais como a substituição da estrutura frásica pela de uma sintaxe espacial. Seria a aventura de mergulhar na representação do fragmentado mundo moderno regido pelo capitalismo, pelos mass media, pelo som dos comerciais e os textos fáceis, automatizados da linguagem publicitária. A mimetizção desse discurso não se faria através de versos lineares mas por uma dramática ruptura nos campos semânticos, sintáticos, léxicos e morfológicos. Ainda assim esta poética não estaria desvinculada dos conteúdos ideológicos e sociais sem o que não chegaria a cumprir a alta função estética e comunicativa da poesia.


TENDÊNCIAS

A poesia contemporânea não parece estar aprisionada em nenhuma cartilha estética. A produção poética desses nossos tempos tem na “releitura do arquivo de formas da tradição e na re-construção do verso suas marcas mais visíveis. Para alguns críticos, leitores e/ ou poetas trata-se de “uma nova estética do rigor”, segundo observa Nonato Gurgel no seu artigo “Territórios da poesia moderna”, (p. 25 ) Para este estudioso há alguns procedimentos estéticos que norteiam a produção poética na atualidade: o culto à forma, sugerindo o desejo de releitura, simulação, citação, intertexto, tudo isto calcado na tradição literária. Nesse caso, não se propõe uma ruptura das formas da tradição como se fazia no passado, quando uma estética se estabelecia às custas do rompimento com a linguagem imediatamente anterior. Há que se aproveitar as lições da tradição e contextualiza-la. Memória e informação conjugam-se nessa nova poética que coloca em relevo o material referente refletindo, no entanto, os paradigmas e saberes produzidos na pós-modernidade, apresntando-se, por sua, interligados multidisciplinarmente (Gurgel, p 26 ).

A poesia contemporânea construirá sua identidade pela diferença com a tradição. No livro do autor pernambucano Frederico Barbosa, Louco no Oco sem Beiras - Anatomia da Depressão, (2003) identificamos marcas dessa nova estética. O livro aborda os temas do tédio, da angústia, da melancolia, estados que culminam numa depressão difusa manifesta numa vida que não encontra sentido. O tédio e a melancolia são estados de alma que fundamentam a filosofia existencialista de Jean Paul Sartre. Antoine de Roquertin é o protagonista de seu livro A Náusea, o romance filosófico que publicou em 1938.

No processo de preparação da biografia do Marquês de Rollebon o personagem, que é um historiador, desencanta-se não só com a sua vida mas com a de toda humanidade. Sente aversão pela condição humana e suas próprias conclusões de cunho niilista perturbam -no de tal forma que ele se vê como um estranho, um louco, quase. Já o título do livro de Frederico Barbosa aponta-nos um sujeito poético vivendo uma existência insana, dentro de um espaço geográfico indefinido – o oco, lugar que não encontra demarcações, que não permite a adequação, ou seja, sem beiras. Este é o espaço do tédio e da melancolia, estados que se representam colocando a ênfase no significante e cujo processo de versificação privilegia os aspectos visuais e sonoros das palavras.

No plano discursivo Louco no Oco sem Beiras se constrói como um único e grande poema, apresentando-se como fragmentado ao longo de suas 81 páginas. O volume divide-se em duas partes intituladas de “O Peso” e “O P.S”, (sugerindo a sigla para a expressão em latim “post scriptum”). A indicação dessa divisão na página encontra-se no sumário e está disposta em um ideograma, com os dois ínter - títulos postos na vertical. O poema de abertura leva-nos direto à ideia de um sujeito poético em luta com a monotonia imposta por uma rotina massacrante, alienante, desesperadora, num mundo que nos convida à reprodução da mesmice, tal como se lê nos versos: “o acordar é/o grave o// dia o/diabo o/ diabólico o// sono o/sono o// horror o/ chumbo o// mais que profundo o// todo o dia o/ sempre o/ diabo azul o/ branco o/ despertador”. A simples tecnologia de um relógio que desperta é o símbolo de uma vida em tormento.

Nota-se nos poemas, todos sem titulação e no nível textual também quebrando a convenção das maiúsculas no início da frase, a construção de versos curtos nos quais identificamos a presença do recurso da paronomásia, que consiste na exploração das semelhanças sonoras, por aliterações e assonâncias. O predomínio é das vogais abertas, tudo isto disposto numa sintaxe que se utiliza do espaço de maneira convencional e, no campo léxico, a escolha dos vocábulos procura representar a fala de uma pessoa em agonia, algo repetitiva, como se verifica nestes versos: estranha urgência/ essa,/distorcida em grito/ de raio paralisador//estranha urgência/essa/certeza da /essa. A musicalidade é obtida antes pela harmonia das combinação silábicas do que pela melodia propriamente, como mimética da monotonia e de uma fala em solilóquio.

A loucura a que se refere o título não é propriamente a dos manicómios mas a da vida que se vive sem que se tenha o privilégio de uma escolha e, no limite, a que lhe determinou o destino ou a má sorte: começo-me/ como quem grita sem/luz sem voz sem vis sem vez sem mais// desfocado/fora de faro/formigando em/ câmera lenta //sem coragem/ sem o que me dispare // vou. O verbo “começar” é colocado na forma reflexiva neste poema em que o sujeito poético vai gradativamente enfraquecendo pela inadequação e sem a consciência da autonomia no seu rumo. O impulso se dilui pela existência de um grito sem que se possa emitir a voz, um grito estrangulado ou ensurdecido no meio de uma multidão que se move quase automaticamente em direção programada ou imposta. O sujeito poético desloca-se em câmera lenta, entorpecido, quer dizer, sem forças e “vai” – para onde?


INTERTEXTUALIDADE

Como enfatizou Nonato Gurgel esta poesia da nova estética do rigor constrói-se pela leitura e releitura da tradição literária. É assim a poética de Frederico Barbosa e de acordo com Amadeu Ribeiro Neto, que assina o prefácio, o sujeito lírico é a única voz presente na construção dos poemas, muito embora sua dicção assuma a expressão coletiva. Para ele, esta voz “é a de um indivíduo ( e de uma coletividade) que, paradoxalmente, protesta insatisfeito antes de mais nada, pela falta” ( p. 14). No entanto, apoiam esta voz outras vozes, as anteriores ao seu texto, no qual encontram-se registrados outros códigos artísticos pelo recurso da intertextualidade.

A página de abertura traz duas citações, de Guimarães Rosa e de Edgar Allan Poe. Trata-se de dois autores de estilos e épocas diversas unindo-se pela vontade da fala, que se expressa ou não de modo muito particular por cada personagem. A citação que se refere ao personagem - contador de histórias de Guimarães Rosa, evoca o seu sertão do tamanho do mundo e dá origem ao título do livro. “Participa” ainda desse livro outro autor romântico, Casimiro de Abreu. O sujeito lírico lembrará seus oito anos, situados numa aurora tão semanticamente diferente quando nada era tão lírico e suave, pois ele já ardia na certeza de seu deslocamento social precoce. ( p. 34.). O spleen que ocorre em Byron também ocorre no sujeito entediado e triste, o diabo o trouxe, como se pode ler no poema da página 76.

O magro cavalo de D. Quixote talvez não o isolasse tanto como quando segue calado no seu carro, tal como sugere o poema da página 55. Encontramos também neste livro, que reúne tendências, versos lineares esboçando um paradoxo sobre o tema da morte, tal como se lê: “o que me espanta não é a morte/ é ouvi-la tão aguda/que por sorte não se escuta”(p. 45 ). E tal como o personagem de Albert Camus, o sujeito lírico desses versos sobre a melancolia também descobre que está na vida como um estrangeiro: “ de Camus em diante/ deitava descrente/ e me deixava sentir/na cama morto o/morto”( p.39). Nota-se na construção dos versos a colocação do artigo definido depois do substantivo como a indicar indiferença e indefinição. Tanto faz que a “coisa” que o artigo define não esteja, sistematicamente, ligada ao sujeito.

O poeta aborda a dispersão, a banalização da fala pelos diálogos fragmentados da comunicação virtual em poemas que ironizam os chats na internet e o telefone celular, tal como se lê: “papo de chat/ chato chato/ mal de e-mail/virtualidades banais/ e meu tempo se vai/on line”. Utilizando-se do recurso da intratextualidade o poeta também empreende um diálogo com sua própria produção. O poema que inicia o livro é o mesmo que encerra sua primeira parte, diferenciado, entretanto, por uma construção nova através da inversão de algumas estrofes, sugerindo a teia labiríntica onde o sujeito lírico se insere. Também pela abordagem, por exemplo, do temas ligados ao seu livro Nada sobre Nada, que ele publicou em 1994.

Desse modo o poeta rompe com as amarras de um texto linear com a previsão do começo, meio e fim. Este é um discurso que sugere um círculo ou o sinal do infinito, na representação, talvez, desse nosso momento histórico, apresentando paradigmas que até se contradizem e que não nos permite certificações exatas para o Objeto, a Coisa, o Ser, como tão bem refere Amador Ribeiro Neto. Um tempo da des-utopia, que melhor será representado por esta proposta da des-poesia que um dia um poeta concretista proclamou.



REFERÊNCIAS

BARBOSA FILHO, Hildeberto. A Luz e o Rigor: reflexões sobre o poético. João Pessoa: Manufatura, 2006.

BARBOSA, Frederico. Louco no Oco Sem Beiras. São Paulo:Ateliê Editorial, 2001.

BARRENTO, João. O poema é uma hipótese.In: O Arco da Palavra. São Paulo: Escrituras, 2006. ELIOT, T.S. A função Social da Poesia. In: Ensaios de doutrina crítica. Lisboa: Guimarães editores, 1997. MOISÉS, Carlos Felipe. Poesia e Utopia. São Paulo: Escrituras, 2007.

GURGEL, Nonato. Territórios da moderna poesia… PAZ, Octavio. Os Filhos do Barro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984. ___________. O Arco e a Lira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, PERRONE-MOISÉS, Leyla. Altas Literaturas. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

SECCHIN, Antonio Carlos. Poesia e Desordem. Rio de Janeiro: Topbooks, 1996.

terça-feira, 29 de março de 2011

HUMILDADE E PAIXÃO

“A poesia é uma outra linguagem, porque nela se criam realidades que têm existência intelectual e corporiedade oral, que não são possíveis fora dela” ( Antonio Gamoneda)

FILHO, Hildeberto Barbosa. “Anotações acerca da poesia e do poema”, in A Luz e o Rigor, reflexões sobre o poético, editora Manufatura, João Pessoa, 72

Nessa época em que proliferam editoras cujos serviços inclui o de fazer com que alguém se torne autor com custos e tiragens mínimas, Hildeberto Barbosa Filho vem bem à propósito neste artigo oferecer-nos uma visão aproximada sobre o que a poesia é e sobre o que ela não é... Na página 20, salta aos olhos uma definição radical do fenômeno poético, a de Ivan Junqueira. Para este ensaísta poesia é a “a mais difícil, complexa e misteriosa manifestação do espírito humano. Exercê-la é o supremo risco, e não se deve corrê-lo à toa”. O autor dividiu seu artigo em sete partes numa abordagem bastante didática em que os assuntos são dispostos em um encadeamento lógico.Seu discurso é frontal, objetivando destrinchar para o leitor o que é do que parece ser, no âmbito da criação poética e no seu produto final, o poema. O conceito de “poema” difere do de poesia, que é utilizado metonimicamente para definir o primeiro. Ele cita Octavio Paz em "O arco e a lira" para distingui-los. De acordo com o ensaísta mexicano, a poesia resulta de “uma condensação do acaso ou é uma cristalização de poderes e circunstâncias alheios à vontade criadora do poeta”, mas o poema, enquanto resultado de uma ação transformadora pelo poeta, é algo que se cria, é obra da linguagem. ( p. 19).
Na primeira parte, Hildeberto Barbosa tece considerações sobre o aspecto lúdico do poema como sendo um procedimento racional utilizado para a sua formatividade nos temos propostos por Luige Pareyson, em os "Problemas de Estética". Ele coloca essa função em evidente dependência da função estética. Um poema, em seu aspecto lúdico, se valerá de estratégias lingüísticas no que toca ao significante tanto no âmbito da sonoridade quanto no aspecto visual. Assim, a música das palavras resultará da utilização de técnicas como as da repetição, da aliteração, da onomatopéia, dentre outros recursos. Já a visualidade pode ser enfatizada através da fragmentação vocabular, da diagramação, paginação e outros recursos tipográficos. Sobretudo, no que diz respeito ao lúdico, o significado se revestirá do nonsense e da alogicidade. Um poema que apresenta uma proposta para a brincadeira sobressai pela espontaneidade, pelo despojamento. Faz-se também como um contraponto a uma poética que tradicionalmente se constrói com uma carga algo grave, solene , sublime. O exemplo que o autor do artigo nos apresenta é o do poema de Carlos Drummond de Andrade “Nomes”, do livro Boitempo II ,em que os animais são designados com substantivos cuja carga semântica remete ao mágico e o mítico, na verdade uma referência à própria palavra.

O Movimento Modernista, radicalizando em busca do puramente nacional e permitindo experiências e extrtavagâncias, legou-nos o humor às vezes terno, muitas vezes desabrido; também requintado e irônico em certos poemas com a proposta de brincadeira que identificamos na obra do poeta Manuel Bandeira, por exemplo. Para este estudioso, a vertente lúdica existe “ na poesia de todo poeta que sabe ver, em sendo verdadeiro poeta, na palavra, um delicioso brinquedo para alargar o prazer da fantasia e da imaginação” ( p. 17). Na segunda parte do artigo, o autor tece considerações sobre o fato de os jovens poetas ou “os candidatos ao Parnaso” fazerem uma grande confusão entre expressão poética e expressão sentimental. Ele afirma que nem tudo o que se escreve em verso contém poesia. Nesse caso, o poema pode estar condicionado à outras funções como a didática e a histórica, sem que se privilegie a função poética da linguagem que nos foi ensinada por Roman Jakobson. O estudioso fala ainda da possibilidade de uma “ prosa travestida”, cujos versos estariam dispostos como “linhas fraseológicas cortadas”, o que aponta para uma clara distinção entre poesia e desabafo, páginas confessionais com uma névoa de poesia, catarses destituídas de rigor estético. Este autor chama a atenção para o fato de que, o sentimento, - aparecendo em primeiro plano em todas estas expressões poetizadas - constitui-se em apenas uma partícula dessa experiência singular e mágica que é a poesia, surgindo junto aos afetos, as pulsões, desejos, inspiração. Ou seja, o sentimento não deve ser eleito como sinônimo de poético. Para Hildeberto Barbosa, o poema constitui-se numa operação intelectiva, sendo o sentimento um fator desencadeador ao qual devem associar-se “as modulações do ritmo, as virtualidades simbólicas da imagem e a surpresa da síntese ideativa” ( p. 19).

Ele cita Mallarmé para quem a poesia se faz com palavras, não com toda palavra, mas numa que se defina dentro de uma estrutura poemática que se teçe em unidade estética e que, pelo inusitado de seu arranjo lingüístico, funde uma nova linguagem. Objetivando elucidar ainda a questão da produção poética em nossos dias, este estudioso registra a opinião do ensaísta José Paulo Paes em entrevista a Heitor Ferraz, publicada na Cult: revista brasileira de literatura ( numero 22, de maio de 1999), quando ele afirma que grande parte dessa profusão de obras publicadas pertence ao terreno da pré-poesia ( p. 24). Entretanto, para o nosso autor é na quantidade que se gera a qualidade, cabendo ao crítico literário e ao historiador da literatura trabalhar essa produção de maneira a estabelecer um juízo sobre os estilos predominantes. Mas ele toca a delicada questão da falta de critério para publicação e isto se deverá tanto à má formação cultural e literária dos jovens poetas como a de seus prefaciadores com os inúmeros livrinhos publicados apontando para a carência de conhecimentos culturais e específicamente literários. Para Hildeberto Barbosa esta produção denuncia a falta de leitura da alta tradiçãob lírica que estabeleceu modelos poéticos incontornáveis. “Sem o convívio da tradição (…) não se pode encontrar um caminhgo original”, ele diz à página 26 deste artigo. O ensaísta termina por aconselhar os jovens poetas a cultivar o contato entre os mais velhos e os mais experientes e, de forma disciplinada, dedicar-se ao estudo da fenomenologia do poético. Para ele, falta à maioria dos jovens poetas paixão e humildade.

Na quinta parte desse artigo o autor comenta bem à propósito da tradição, que a construção de um poema não dispensa a intertextualidade. Ele enfatiza este procedimento também como medida para “um sólido rendimento estético” na recepção de uma obra. De fato, sobretudo a poética contemporânea pode contracenar com expoentes da tradição lírica ocidental desde Homero, de maneira implícita ou explicita. Há exemplos curiosos a este respeito no terreno da intratextualidade quando o poeta dialoga com a sua própria obra. De acordo com o ensaísta, a consciência de que a escrita se faz a partir de conteúdos intertextuais fica evidente não só pela necessidade de se obter domínio deste recurso, mas e, principalmente, pelo conhecimento em profundidade da tradição literária. Como uma grande teia, em algum ponto e de maneira mais evidente ou velada, as produções poéticas de uma dada cultura se entrelaçam, convergindo escritores e o público-leitor ao fator que os identifica.
O conhecimento da literatura pressupõe ainda a que o poeta se inteire da obra de outros poetas de sua mesma geração mesmo em face de um projeto que lhe seja completamente diferente. Hildeberto Barbosa tratra desse aspecto na sexta parte do seu artigo. Como exemplo, cita João Cabral de Melo Neto quando questionado sobre suas preferências. Enquanto grande leitor de poesia o autor pernambucano refinava seu gosto com obras que se diferenciavam da forma como concebia  sua poética . Em entrevista concedida à revista Palavra, (número 12, abril de 2000), o poeta afirmou: “não tenho o preconceito de julgar um sujeito de acordo com o que eu faço e não gosto só daquelas coisas que se parecem com o que eu faço”. João Cabral de Melo Neto ensina-nos a não nos fecharmos como em um clube, um gueto ou uma seita de atividade poética ou, mesmo assumirmos a postura de “seres iluminados” infensos à crítica, adotando uma atitude de modo que o diferente venha a ser convenientemente ignorado.Um olhar ampliado acerca da fenomenologia estética pode garantir o exercício de uma crítica consequente e mais liberta de preconceitos ideológicos. À propósito disto, Hildeberto Barbosa afirmou: “Digamos que todos (….) como que estão tentando responder dignamente ao desafio singular e epifânico da poesia” ( p. 33).

Hildeberto Barbosa também faz sua crítica à poesia que se acerca do cotidiano já na última parte de seu estudo. Ele recorre à definição do poeta espanhol Antonio Gamoneda para quem a poesia é “emanação da vida, como o amor ou a respiração”. ( p. 46) Em entrevista à revista Cult ( número 46), o poeta espanhol assim se expressou: “ sinto certo desconsolo que jovens  poetas, dos anos 50 para cá, tenham desenvolvido um realismo instrumentalizado, cotidianizado, quando a codianeidade está no jornal, na televisão…Então para que isso na poesia?”.( p.34). De acordo com Gamoneda, a poesia sendo uma outra linguagem, cria realidades que têm existência intelectual e corporeidade oral, que não são possíveis fora dela.Sobre a relação da poesia com o cotidiano, Hildeberto Barbosa enfatiza que a poesia não deveria falar do que é, mas do que poderia ser, em linha com as lições de Aristóteles. O espaço da surpresa, do improvável e do imprevisível deveria prevalecer sobre esse “cotidiano instrumentalizado” que ocorre em certo discurso em que é o efêmero que se relata assim como o trivial, o banal e cujo discurso não ultrapassa a simples codificação da constatação dos fatos. De fato, a poesia é outra linguagem. Mas dentro das suas infinitas possibilidades o cotidiano pode ser abordado num poema em que se cria uma realidade própria, espiritual, dentro de uma configuração sintática que não subsiste fora dela mesma, para utilizarmos algumas dos termos em que o nosso autor define o estado poético. Desse modo, nenhuma temática, mesmo a que emana do cotidiano, deixará de ser contemplada pela poesia e o que diferirá do cotidiano tal como ele se apresenta será o tratamento que a poética lhe concede.

O artigo de Hideberto Barbosa prende-nos também pela precisão didática ao discorrer sobre a ampla e complexa matéria da poesia, distinguindo-lhe certas categorias e atributos e objetivando uma conceituação o mais aproximada possível de seu universo. O autor oferece-nos um desses textos críticos necessários ao conhecimento do assunto, ao mesmo tempo que nele identificamos as marcas linguísticas que evidenciam o que lhe é própria, a poesia.

sexta-feira, 11 de março de 2011

A PALAVRA MÁGICA

Carlos Drummond de Andrade

Certa palavra dorme na sombra
de um livro raro.
Como desencantá-la?
É a senha da vida
a senha do mundo.
Vou procurá-la.

Vou procurá-la a vida inteira
no mundo todo.
Se tarda o encontro, se não a encontro,
não desanimo,
procuro sempre.

Procuro sempre, e minha procura
ficará sendo
minha palavra

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

RECADO


VENHO DE UM LONGÍNQUO RECADO
PARA QUE EU CHEGASSE TODO O TEMPO
FOI PROSCRITO

E O SILÊNCIO TORNOU-SE ÚTIL A MINHA PASSAGEM.

O TEMA DA ROSA

O amor desfaz-se em pétalas
à medida do vento sobre ela,
a rosa, símbolo dessa coisa
frágil e bela.

Mas sem a rosa
os dias como que passam lívidos
e há pétalas soltas
junto com balas
perfurando livros.